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O Canjirão de Morraça

O Canjirão de Morraça

14
Set17

Um Pratinho de Arroz-doce e Muita Lata [Dra Ana Correia - Manhãs da 3 - RTP Antena 3]

António

Cara Drª

A minha namorada ofereceu-me um quebra-cabeças no dia dos meus anos. É constituído por milhentas peças de madeira que se encaixam umas nas outras e que no fim formam um objecto bonito para se pôr numa prateleira da estante da sala. A dificuldade do quebra-cabeças reside no facto de as peças terem que ser encaixadas numa certa ordem e só quando se vai tentar encaixar a última é que se descobre que a nossa escolha para a primeira peça foi um erro.

A ideia da minha namorada ao oferecer-me o quebra-cabeças era eu armar o quebra-cabeças primeiro, depois desmanchava-se e era a vez dela. Na opinião dela, partilharmos estas pequenas coisas é muito importante para nos mantermos unidos. Só que agora ela passa o tempo a perguntar-me «Então, já armaste o quebra-cabeças?». Começo a estar tão farto desta pergunta que ontem, depois de um dia difícil no emprego, estive quase a responder «E não se pode armar sozinho?» o que é uma coisa terrível para se dizer a quem nos ofereceu um quebra-cabeças com tanto amor e carinho.

Eu já estive a olhar com atenção para aquele monte de pequenas peças de madeira e cheguei à conclusão que aquilo não vai ser nada fácil. Talvez com tempo eu o possa armar outra vez mas com a minha namorada a apressar-me não vou conseguir. A verdade é que eu detesto quebra-cabeças; para mim, preencher a declaração anual de IRS deixa-me a cabeça quebrada para o resto do ano; não preciso de arranjar outras formas de a maltratar. Por outro lado, também não me posso queixar muito porque tenho plena consciência de que não sou a pessoa mais fácil para quem escolher um presente de aniversário. Sou mesmo do tipo a quem se oferece um Porsche a rebrilhar de novo e que olha para aquilo com ar enjoado e pergunta «E isto serve para quê? Isto pode levar-me a algum sítio onde um Trabant não me possa levar igualmente?».

Uma das maneiras de resolver este meu problema do quebra-cabeças seria sugerir à minha namorada que talvez ela o possa armar pelos dois. Ando a arranjar coragem para lhe dizer isto porque receio bem que a sugestão me acarrete uma ida a Fátima a pão e água. Talvez a ida a Fátima seja exagero da minha parte mas do jejum ninguém me livra. Tenho tanta certeza disto que até já comecei a escrever uma carta que me traga a minha namorada de volta. A carta começa assim: «Meu bem, ouve as minhas preces! Espero que regresses em breve...». O que é que a Drª acha? Pode não ser grande coisa, mas pelo menos é original; nunca vi ninguém a dirigir-se à namorada nestes termos.

Chegamos agora ao ponto em que é necessário escolher o audiogésico apropriado. Se fosse eu a escolher, passava aquela da Celina da Piedade em que ela canta: «Meu pratinho de arroz-doce // Polvilhado com canela». Como isto não é um programa de discos pedidos, a Drª passará a música que bem entender. E se não quiser passar nenhuma, também não me importo porque o meu único objectivo aqui é poder chamar à minha namorada «Meu pratinho de arroz-doce» e dizer-lhe que gosto muito dela e isso acabou agora de ser feito.

Arranjei esta forma rebuscada de chamar «Meu pratinho de arroz-doce» à minha namorada porque isto constitui o meu presente para o dia de S. Valentim. A Drª pode fazer notar que o dia de S. Valentim é só daqui a seis meses e que havia muito tempo para tratar do assunto mas eu não concordo: por um lado, isto é um serviço que tem que ser feito e assim fico já despachado; por outro, todos sabemos que o dito santo tem umas gâmbias enormes, é um autêntico papa-léguas, quando damos conta já ele vai a milhas. Isso explica porque é que me acontece, como a tanta gente, só me lembrar do dia de S. Valentim no dia 30 de Fevereiro. Isto deixa sempre a minha namorada muito triste e ver a minha namorada triste faz-me a mim muito triste. É precisamente para evitar toda esta tristeza que este ano estou a tratar do assunto a tempo e horas, não vá meter-se pelo meio algo realmente importante e eu falhe outra vez a data fatídica.

Aqui a Drª começará a desconfiar se não estará a lidar com um pequeno vigarista e quererá confirmar: «Mas tem a certeza que a sua namorada lhe ofereceu mesmo um quebra-cabeças no dia dos seus anos?». Não. A verdade é que só faço anos na próxima Quarta-feira. Como é esta a primeira vez que celebro o meu aniversário este ano, e que posso não poder celebrá-lo outra vez nos próximos doze meses, quero que este dia ...

O texto completo está em Um Pratinho de Arroz-doce e Muita Lata

António Esteves

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O Kant não era alentejano; era alemão.

 


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